1 João 5.20 – Quem é o Deus verdadeiro neste texto?

 


1 João 5.20 – Quem é o Deus verdadeiro neste texto?


Antes de começar existe algo que devemos deixar absolutamente claro. O Senhor Jesus Cristo é o Filho de Deus. É o ser mais importante de todo o universo, tirando Deus. O propósito deste artigo é honrar o Senhor Jesus como deve ser honrado. Infelizmente, o ensino da Bíblia acerca do Senhor Jesus é frequentemente mal entendido. Num bem intencionado embora que errado intento de honrar Jesus, muitas igrejas ensinam acerca dele coisas que não são bíblicas. Este artigo tem a intenção de corrigir essas ideias errôneas. Isto não emana de um desejo de criticar as ideias do outros, mas simplesmente de mostrar o que a Bíblia realmente ensina acerca do Senhor Jesus, o Filho de Deus. Unicamente quando entendermos isto, poderemos dar ao Senhor a glória que merece.

As traduções bíblicas em geral vertem 1 João 5:20 de modo a identificar o Senhor Jesus Cristo como sendo “o verdadeiro Deus e a vida eterna”. No entanto, essa interpretação entra em conflito com o próprio conteúdo do mesmo versículo, bem como com o restante das Escrituras Sagradas. O texto de 1 João 5:20 encontra-se traduzido da seguinte forma:

“Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o Verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, no Seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna.” (1 João 5:20)(Bíblia de Jerusalém).

Não há dúvidas de que as Escrituras apresentam tanto Deus Pai, como Jesus Cristo como “Verdadeiros”. No entanto, só o Pai é mencionado como “Deus verdadeiro.” Isto porque, há vários textos que são claros em afirmar que Deus é um e único (João 5:44; Romanos 16:27; 1 Coríntios 8:6; 1 Timóteo 1:17; Judas 25) e não dois ou três como muitos equivocadamente acreditam.

Dois textos do Novo Testamento apresentam o Pai de Jesus Cristo como “Deus verdadeiro”:

“Porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos para convosco, e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro, E esperar dos céus o seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura.” (1 Tessalonicenses 1:9,10)

“E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” (João 17:3)

O único texto indicando Jesus Cristo como “verdadeiro” encontra-se registrado em Apocalipse 3:7:

“E ao anjo da igreja que está em Filadélfia escreve: Isto diz o que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre:” (Apocalipse 3:7)

Tal passagem de Apocalipse refere-se a Jesus Cristo, porém, de maneira alguma o Filho de Deus está sendo considerado como “Deus verdadeiro”.

De acordo com os versos acima, o título de “Deus verdadeiro” é unicamente aplicado ao Pai e não ao Seu Filho Jesus. O interessante das passagens apresentadas acima é a de João 17:3, pois nela o próprio Senhor Jesus refere-se ao Seu Pai como sendo o “único Deus verdadeiro”, excluindo a possibilidade de Ele, Jesus, ser outro Deus verdadeiro.

Além disso, o termo “verdadeiro” que aparece em 1 João 5:20 refere-se ao Pai ou ao Filho? Para descobrirmos basta trocar o termo “verdadeiro” pela respectiva pessoa:

EXEMPLO 1: “Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o FILHO DE DEUS. E nós estamos no FILHO DE DEUS, no Seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna.”

Com este simples exercício, constata-se que o primeiro exemplo é completamente absurdo e insustentável. Poderia Jesus Cristo ser Filho do Filho de Deus? Poderia o “Filho do Filho” ser o único Deus verdadeiro? Impossível apoiar esta opção. É justamente nesta confusão babilônica que os trinitarianos acabam caindo e se perdendo.

EXEMPLO 2: “Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o PAI. E nós estamos no PAI, no Seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna.”

Com relação ao segundo exemplo, o texto está informando corretamente que quem está no Filho é que chega ao Pai, o que se harmoniza com o ensinamento bíblico:

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1 Timóteo 2:5)

Para se chegar a conclusão correta basta entender o que o verso como um todo quer dizer. O texto tem como objetivo mostrar que pelo Filho ou no Filho abre-se o entendimento para conhecer o “verdadeiro Deus e a vida eterna”, sendo o Filho o instrumento para este fim:

“E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido.” (João 6:65)

“Quem recebe vocês, recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.” (Mateus 10:40)

“Quem vos ouve, ouve a mim; e quem vos despreza, despreza a mim; e quem me despreza, despreza àquele que me enviou.” (Lucas 10:16)

Esta conclusão está em plena conformidade com os ensinos da Palavra de Deus. Podemos citar, ainda, Mateus 11:27; Lucas 10:22; João 1:18.

O próprio Evangelista João deixa claro em 1.18 de seu evangelho, que o Filho nos deu a conhecer o Pai. Façamos, então, uma releitura de 1 João 5.20:

A parte “a” do verso diz “Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o Verdadeiro…” Perceba que até aqui não há como achar que João esteja chamando Jesus de “verdadeiro” para concluir que ele seja o “verdadeiro Deus”, embora que ele seja o verdadeiro Filho, pois o foco recai sobre a ação do Filho de Deus em nos dar entendimento.

Não parece razoável presumir que o “verdadeiro” acerca do qual o Filho nos veio dar conhecimento seja ele mesmo já que o próprio Jesus disse não testificar de si, logo ele é o instrumento para chegarmos ao conhecimento de Deus:

“Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro. Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro.” (João 5:31,32)

Dessa elucidação decorre o entendimento da parte seguinte do verso: “E nós estamos no verdadeiro…” Na mesma epístola de João lemos:

“Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.” (1 João 4:15,16)

Nota-se que mais uma vez é feita a distinção de Jesus como Filho e de estarmos em Deus por causa da nossa aceitação que diz respeito ao Filho. Então, até esse ponto temos a compreensão natural de que o “verdadeiro” acerca de quem Jesus nos deu inteligência para O conhecermos não é ele próprio, mas Aquele de quem ele é Filho.

O texto de 1 João 5:20 segue dizendo: “…no Seu Filho Jesus Cristo.” Entende-se que o pronome “seu” está se referindo a alguém. Quem? É natural concluir que existe um personagem no verso, além do Filho, que é a causa do verso e que através do Filho estamos nEle. Jesus, o Filho de Deus, não pode ser Filho dele mesmo. O contexto de 1 João 5 traz importantes informações sobre Deus e Seu Filho Jesus:

“Nós aceitamos o testemunho dos homens, mas o testemunho de Deus tem maior valor, pois é o testemunho de Deus, que ele dá acerca de seu Filho. Quem crê no Filho de Deus tem em si mesmo esse testemunho. Quem não crê em Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca de seu Filho. E este é o testemunho: Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho“. (1 João 5:9-11)

“Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna.”

Ao concluir, o texto sob análise diz: “Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna.” Esta frase levanta muitos questionamentos, pois faz pensar que João esteja se referindo a Jesus, visto que em português deve-se usar “este” para o que está perto e “esse” para o que está longe. O termo “este” utilizado em 1 João 5:20 foi traduzido do original grego “houtos”.

É necessário chamar a atenção para outros textos bíblicos em que aparece o termo grego “houtos”:

Em Atos 7:18 e 19 o termo grego “houtos” foi traduzido como “esse”:

“Até que se levantou outro rei, que não conhecia a José. Esse (Houtos), usando de astúcia contra a nossa linhagem, maltratou nossos pais, ao ponto de os fazer enjeitar as suas crianças, para que não se multiplicassem.” (Atos 7:18,19)

Há outro texto muito significativo, visto que o objetivo é buscar exemplos nos próprios escritos de João:

“Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este (houtos) tal é o enganador e o anticristo.” (2 João 1:7)

Neste caso específico, o pronome demonstrativo “este” não se refere ao que vem imediatamente antes, uma vez que Jesus não é o enganador e o anticristo. É evidente que “este” refere-se aos que negam a Jesus. Eles são chamados coletivamente de “o enganador e o anticristo”.

Em 1 João 2:22 o termo grego “houtos” novamente é traduzido como “esse”:

“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse (houtos) mesmo que nega o Pai e o Filho.” (1 João 2:22)

Caso o termo grego “houtos” fosse traduzido como “este”, como foi no caso de 1 João 5:20, entender-se-ia que o nosso Salvador seria chamado pelo apóstolo João de “mentiroso”.

Outra situação semelhante encontra-se registrada em Atos 4:10 e 11:

“Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele (houtos) é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina.” (Atos 4:10,11)

Neste texto o termo grego “houtos” foi traduzido por “Ele”, referindo-se não a quem estava imediatamente mais próximo do relato, mas a Jesus que foi citado no início do verso anterior. Caso contrário, o paralítico é quem seria “a pedra que foi rejeitada” e não Jesus.

Feitas estas considerações, passemos a analisar a passagem na tradução Almeida Corrigida Fiel.

“E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para que conheçamos ao Verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (1 João 5:20) (A.C.F.).

Aqui há aparentemente duas dificuldades. A primeira é quando se diz que “estamos no verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo” e a segunda é “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”. A preposição colocada aqui é “ἐν” (en), que, em grego, é usada com locativo, instrumental e raros dativos. Como instrumental pode significar “por” e “com”. Nesse ponto, vale lembrar que a expressão “isto é” constante da Almeida Corrigida Fiel, e que seria a primeira dificuldade, não está presente nos originais gregos, e foi acrescentada como um indutor de conclusão para favorecer determinada crença.

Deve-se registrar que as expressões “e no que é verdadeiro estamos” e “em seu Filho Jesus Cristo”, apresentam a mesma forma grega em uma construção ligeiramente diferente por conta do verbo na primeira delas. O uso do verbo “estar” influi nesse julgamento, pois quando se diz “estamos no verdadeiro” temos a ideia locativa. Já o trecho “em seu Filho Jesus Cristo”, pode ser traduzida “por seu Filho Jesus Cristo” ou “com seu Filho Jesus Cristo”. E fica a interrogação: Qual a melhor forma de entender a expressão?

Observe que o versículo principia informando que Jesus veio para nos dar a conhecer o Verdadeiro, então, obviamente, ele é o instrumento para esse fim. Logo, é natural entendermos “e nós estamos no Verdadeiro, por seu Filho”. Se for usado “com” deve ser entendido como o uso na frase “fiquei bom com remédio”, onde remédio foi o veículo para a finalidade.

Para mostrar as várias conceituações do versículo, listamos 3 (três) versões Católicas:


“Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.”

Bíblia Ave Maria


“Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu inteligência para conhecer o Verdadeiro. Estamos com o Verdadeiro e com o seu filho Jesus Cristo. Ele é o Deus verdadeiro e vida eterna.”

A Bíblia do Peregrino


“Mas sabemos que veio o Filho de Deus e que nos deu entendimento para que conheçamos o verdadeiro Deus e estejamos no seu verdadeiro Filho. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.”

Matos Soares


Ao concluir o verso com “Este é…” o tradutor faz muita gente pensar que João esteja se referindo a Jesus; visto que, como vimos acima, todos nós aprendemos que, em português, se deve usar “este” para o que está perto e “esse” para o que está longe. “Este” no verso sucede imediatamente a expressão “Jesus Cristo”, assim, essa parte de 1 João 5.20 poderia ser algo que causasse dificuldade na defesa do monoteísmo estrito, mas a forma de expressão da língua grega é diferente do nosso português, embora nossa língua tenha alguma coisa dela.

W. C. Taylor, em sua gramática, comentando sobre outro assunto, nos dá uma informação valiosa para a compreensão desse uso em grego, ele diz:


“…não há pronome correspondente ao nosso ‘esse’, pois ‘hode’ é quase equivalente de ‘este”.

Taylor, W.C. in Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego, Juerp 1990, pág. 29


No versículo que estamos estudando, não foi usado “hode”, que costumam usar para “esses”, mas “houtos” que os dicionários normalmente traduzem por “este”, mas como não há um equivalente exato para “esse” em grego, ainda que devêssemos entender “esse”, “houtos” poderia estar lá da mesma forma. E sobre isso o Gramático escreve: “…houtos pode se referir a um assunto que está mentalmente mais perto da atenção de quem fala ou escreve, embora na ordem anterior das palavras seja mais remoto. Tal entendimento já restou provado nos versículos acima citados. (Atos 7:18,19; 2 João 1:7; 1 João 2:22; Atos 4:10,11).

O verso de 1 João 5.20 segue dizendo: “…em seu Filho Jesus Cristo.” (exclui o “isto é” inexistente do original grego), aqui o português e a tradição trinitária prejudicam a naturalidade do entendimento do verso, porque a expressão “em seu Filho” pode ter, pelo menos, duas acepções, mas só é vista de uma forma: que o Verdadeiro referenciado por João é o Filho. Essa é forma que quebra a sequência do que vimos até agora, e ignora um detalhe muito importante da frase, pois ao dizer “Em seu Filho”, esse pronome “SEU” está se referindo a alguém! Quem?

Façamos uma releitura do trecho: “e no que é verdadeiro estamos, em seu Filho Jesus Cristo”, ora é natural percebermos que existe um personagem no verso além do Filho, que é a causa do verso e através do Filho estamos NELE. Ora, se esse “SEU” não se refere ao “verdadeiro”, em quem estamos da frase anterior, a quem então se refere? É provável que todos concordemos que Jesus não pode ser Filho dele mesmo! Logo, ao dizer “em seu Filho” esse “EM” não tem intenção de relacionar “e no que é” para se concluir que “O Verdadeiro” e o Filho do “Verdadeiro” sejam uma coisa só, mas mostrar que pelo Filho, ou no Filho, se obtém o entendimento para conhecermos o “Verdadeiro Deus e a vida eterna.”

Entende-se, pois, que o apóstolo João tinha conhecimento do real sentido da expressão “verdadeiro Deus”, pois essa expressão aparece em muitas passagens bíblicas, entre as quais destacamos:

“E Israel esteve por muitos dias sem o verdadeiro Deus, e sem sacerdote que o ensinasse, e sem lei.” (2 Crônicas 15:3) (A.C.F.)

“Mas o Senhor é o Deus verdadeiro; ele é o Deus vivo; o rei eterno. Quando ele se ira, a terra treme; as nações não podem suportar o seu furor.” (Jeremias 10:10) (N.V.I.)

“pois eles mesmos relatam de que maneira vocês nos receberam, como se voltaram para Deus, deixando os ídolos a fim de servir ao Deus vivo e verdadeiro,” (1 Tessalonicenses 1:9) (N.V.I.)

É certo, pois, que em todos os seus escritos, o apóstolo João jamais considerou Jesus como “Deus verdadeiro”, pois ele sabia que esta exclusividade pertence unicamente à pessoa do Pai, a quem Jesus orou dizendo:

“E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” (João 17:3).

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