“SÓ DEUS PODERIA TER MORRIDO POR NOSSOS PECADOS”

 “SÓ DEUS PODERIA TER MORRIDO POR NOSSOS PECADOS”


 



O título desse capítulo é uma afirmação comum em meios trinitarianos, onde se defende que Deus precisaria morrer para fazer o resgate da humanidade de forma plena e eficiente. O escritor Jefferson Ramalho, por exemplo, apenas segue outros trinitaristas ao dizer: “Para que o homem pudesse ser salvo por intermédio da entrega sacrificial de Cristo, seria obrigatoriamente necessário que
este fosse Deus” 589 e em sua Teologia Sistemática, Millard Erickson, um conhecido trinitário, fala, sem qualquer preocupação em ser contraditório, de “um Deus infinito que morreu” 590. Mas tal ideia é até mesmo antibíblica, pois o que lemos em Hq. 1.12 é “Acaso não és o Senhor desde o princípio, o meu Deus, o meu Santo, que não morre591?” (CNBB, com fraseologia similar: BAM, NVI, Net Bible,Pastoral).

A ideia de que Deus possa morrer não é referenciada em lugar algum das Escrituras Sagradas. Na verdade, na antiguidade histórica que cerca Israel só se houve falar na morte e
ressurreição dos “deuses” mitológicos pagãos: “a ideia de que um Deus que morria e ressuscitava está presente em toda a religiosidade do Mediterrâneo, e durante sua história, Israel entrou em contato com
várias dessas divindades: o Baal cananeu, o Tammuz da Assíria e Babilônia e Adônis, Melqart e Eshmun das cidades Sírias. Essas divindades dos vizinhos de Israel oferecem um efetivo contraste desta fé israelita num ‘Deus vivo’”.592, mas Yahweh nunca foi retratado com passível de morte, pelo contrário:
“de eternidade a eternidade tu és Deus” (Sl. 90.2). A expressão “Deus vivo” ou “Deus vivente” faz parte do quotidiano do povo de Deus e está registrado em diversas ocorrências: Dt. 5.26, Js. 3.10, I Sm. 17.26, II Rs. 19.4, Is 37.4, Jr. 10.10, Os. 2.1, Sl. 42.2, Dn. 6.2 e etc. Como alguém poderia defender
que Deus vive ou é vivente, se houve um período em que Deus teria morrido? Como alguém descreveria a Deus, se Jesus fosse esse próprio Deus , nos três diz em que esteve morto? Será que é apropriado um verdadeiro monoteísta que crê no Deus Altíssimo, afirmar que seu Deus estava morto e sepultado?

Ora, além de a Bíblia dizer que Deus vive também afirma categoricamente que Deus não morre I Tm. 1.17, e, a afirmação do Jefferson Ramalho quando disse “seria obrigatoriamente necessário”, chega a ser apenas retórica, ou mera linguagem figurada (vazia em si mesma), considerando que na Bíblia não há absolutamente nada escrito que confirme essa ideia. Além de estar registrado que Deus é imortal, as Escrituras dizem que quem morreu foi seu Filho, o Cristo, e não o Deus mesmo, Rm. 5.10 “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho...”. Ora, se Deus é uma trindade, por que esse texto de Romanos, dentre muitos outros, falaria de Deus e de seu Filho como entes distintos numa forma antológica? Um sendo o objeto fim da reconciliação e o outro sendo o meio pelo qual isso aconteceu? Se alguém disser que “Deus” nesse verso se refere ao Pai, então teríamos sido reconciliados só com o Deus enquanto Pai e não com o “Deus trindade”? Ou seja, teríamos sido reconciliados só com um aspecto hipostático (uma das pessoas) de Deus? Até o Sumo Sacerdote Caifás entendia, acertadamente, que um homem e não o próprio Deus deveria morrer pelo povo quando afirmou “... convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação.” (Jo. 11.50) e essas palavras do Sumo Sacerdote não foram acidentais ou de ocasião; pois o apóstolo João testifica a origem celeste da afirmação: “Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o
sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. 52 E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos.” Então, a profecia registrada nas Escrituras indica que o resgate do povo se daria pela morte de um homem e não pela “morte” do próprio Deus. A afirmação da “morte do próprio Deus” só justifica sua existência quando se descobre que o surgimento dessa ideia é posterior, mas muito posterior ao ensino bíblico sobre a salvação do homem. É uma frase surgida somente depois da tentativa de fazer Jesus o próprio Deus,
ou seja, somente depois que buscaram elevar Jesus ao status de seu próprio Pai é que a frase passa a fazer algum sentido de existência, embora continue sem sentido plausível se considerarmos somente a
Bíblia como ponto de referência.

As profecias não apontam para a “morte do próprio Deus”, Caifás, como já foi dito, confirmou isso quando profetizou, pois a transgressão entrou no mundo por um homem, Adão, e por outro homem, o segundo Adão, Jesus Cristo, as coisas foram consertadas. Paulo diz isso em Rm. 5.15,18 “Mas não é
assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos …Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”. Assim,
ainda que muitos teólogos digam que o próprio Deus tenha morrido pessoalmente, o mesmo Deus, através de seus inspirados, diz que um homem, a semente da mulher, Gn. 3.15, Jesus Cristo, seu Filho, foi quem morreu e ressuscitou. Jamais, em absolutamente nenhum lugar, a Bíblia diz que Deus
morreu. Na verdade, já vmos em Hq. 1.12 (CNBB, NVI, BAM, e outras) o contrário, ou seja, que Deus não morre.

A afirmação que “somente Deus poderia resgatar, pela sua própria morte, a humanidade” carrega uma contradição denunciada pela Bíblia. Se se considerar Jesus como o “ o próprio Deus-Homem”, os trinitarianos precisarão, forçosamente, admitir, posto que as Escrituras informam que Deus é imortal, que apenas a “parte593” homem ou humana de Jesus teria morrido e sua “parte594” Deus permaneceria intacta. Mas, morte e ressurreição são realidades consequentes, ou seja, a segunda não se dá sem que tenha havido a primeira. Sem morte não há ressurreição! E, a esse respeito a Bíblia nos informa em I Co. 15.14 “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” Essa realidade testemunha que a morte de Jesus foi uma morte factual e por isso capaz de validar a nossa fé para a ressurreição futura dos crentes. Ele, de fato, morreu e Ele, de fato, ressuscitou. Mas, se Ele é o próprio Deus como afirma os trinitários e unicistas, e Deus não morre, então, quando alguém diz que “Deus precisou morrer para salvar os homens”
tal frase se torna uma expressão de retórica que afirma algo falso, posto que se Ele fosse o próprio Deus, seria imortal, e se foi a parte homem que morreu, não se pode afirmar, em consequência, que “Deus morreu
por nós”. Deus é, por assim dizer, uma linha contínua de Vida Eterna. Se alguém, envolvido em estudos teológicos, requerer o Communicatio Idiomatum595 para afirmar que a morte de Jesus deve ser reconhecida como a morte do próprio Deus, teríamos, por trato de uniformidade que o desconhecimento de
Jesus do dia da volta é também o desconhecimento de Deus; e a constituição física de Jesus seria a limitação no tempo e no espaço de Deus. Isso, claro, além de outras implicações, desfiguraria Deus triplamente, pois se admitiria mortalidade, incapacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e ignorância em Deus. E se alguém defender, diante desses problemas, que as naturezas não se misturam na única pessoa de Jesus, logo, não se pode admitir que Deus morreu. Este emaranhando de ideias extrabíblicas é um caminho que um crente sincero e imparcial, que ama e conhece a Deus, não
deve querer trilhar. Tal ideia trinitária ainda traz outra implicação. Em Hb. 9. 15-17 “E por isso é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo
do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna. Porque onde há
testamento, é necessário que intervenha a morte do testador. Porque um testamento tem força onde houve morte; ou terá ele algum valor enquanto o testador vive?” Quem foi mediador e é o testador do Nova Aliança? Se foi o “Deus Filho”596, então, este não morreu, porque Deus é imortal, logo, não é, também, o validador do testamento. Mas, se foi o Filho de Deus, então, este sim morreu e ressuscitou
validando o Novo Testamento. Perceba que reconhecer um “Deus' Filho' como o próprio Deus”, na verdade, invalida a Nova Aliança, pois se este não pode morrer, por Deus ser imortal, então, é descumprido Hb. 9.15-17, e
decorre que sem a morte do testador não há validade no Novo Testamento. Daí se percebe a contradição da frase “Deus precisou morrer”, que terminaria, na verdade, por anular a salvação em vez de confirmá-la. Mas, graças a Deus que seu Filho morreu, plena e verdadeiramente, validando o Novo Pacto e ressuscitou para nossa justificação.

*Bibliografia 
______________________________
589 Ramalho, Jefferson em Jesus é Deus? Editora Reflexão – 2008, pág. 121
590 Millard J. Erickso em Teologia Sistemática, Edições Vida Nova – 2015, pág. 676
591 Algumas versões, praticamente todas baseadas na Almeida, vertem “nós não morreremos”. Muitos estudiosos 
defendem que a redação original “não morre”, sofreu uma Tikkun-Sopherim (alteração dos escribas) para não associar 
a palavra “morte” a Deus. A diferença entre uma e outra apesar de bem visível em português, em hebraico, a línguaoriginal, é bem sutil, תמות א) lo’ ta·múth) para נמות לא) lo’ na·múth), apenas uma letra, mas que altera o sujeito do 
verbo. Alguns exemplos adicionais de Tikkun-Sopherim foram detectados em (a) “Yahweh permaneceu em pé diante 
de Abraão” foi mudado para “Abraão ficou ainda em pé diante da face do SENHOR” (Gn. 18.22); (b) “pecado de seus
filhos, que blasfemavam contra Deus” foi mudado parar “fazendo-se os seus filhos execráveis” ( I Sam. 3.13); (c) 
“minha glória” por “sua glória” em Jr. 2.11.
592 Tryggve N. D. Mettinger em O Significado e a Mensagem dos Nomes de Deus na Bíblia, Academia Cristã – 2015, 
pág. 138.593 Ou sua natureza humana, conforme os ensinos trinitários.
594 Ou sua natureza divina, conforme os ensinos trinitários. Vale ressaltar que para um trinitário divindade é sinônimo de 
deidade.
595 “É um conceito cristológico sobre a interação da divindade e humanidade na pessoa de Jesus Cristo. Sustenta que, 
tendo em conta a unidade da pessoa de Cristo, seus atributos divinos e humanos e suas experiências pode ser 
propriamente referidas a sua outra natureza, de modo que o teólogo pode falar de 'o sofrimento de Deus'” 
(https://en.wikipedia.org/wiki/Communicatio_idiomatum).
596 Aqui vale relembrar que a expressão “Deus Filho” não é uma designação bíblica de Jesus Cristo. A expressão bíblica é
Filho de Deus e não são sinônimas.


Comentários

  1. Olá irmão Daniel, desejo conversar com vc para aprofundar mais meu conhecimento sobre alguns assuntos bíblicos. Você tem algum contato que possa passar ?

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    1. Olá! Boa Noite! Desculpe pela demora em responder viu. Eu acho que nós já se falamos! Obrigado por entrar em contato viu!

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