QUEM OU O QUE É O ESPÍRITO SANTO?

 

●《》QUEM OU O QUE É O ESPÍRITO SANTO?

Quem ou o que é o Espirito de Deus? Um anjo, um servo de Deus e de Cristo, Deus consubstanciado com o Pai e o Filho, o próprio Filho ou, simplesmente, uma faculdade de Deus?

•○●Para buscar respostas a essas perguntas precisamos saber o que é um espírito no sentido bíblico. No Antigo Testamento a palavra para espírito éַחּרו) ruach), curiosamente é uma palavra do gênero feminino. Já em grego o termo usado pelos LXX para traduzir ruach é πνεῦμα (pneuma), um substantivo do gênero neutro. Os significados lexicais são: vendaval, brisa, ar, alento vital, ânimo, respiração, fôlego, sopro, etc. O equivalente usual é “espírito”. 

A palavra surge já em Gênesis 1.2 “E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”. Algumas traduções, em especial as católicas, prefiram traduzir diferentemente esse verso do primeiro livro das Escrituras. É o caso da Bíblia do Peregrino que traz: “...E o alento de Deus revoava sobre a face das águas.” ou a Bíblia de Jerusalém que traduziu: “... e um vento de Deus pairava sobre as águas.” ou ainda “o sopro de Deus pairava na superfície das águas” segundo a Tradução Ecumênica da Bíblia. No entender desses tradutores católicos, ַחּרו) ruach), nesse verso, é um componente dos elementos da criação: céu, terra, ar ou vento. Para melhor entendermos quem é o Espírito de Deus é oportuno descobrirmos o que é o
espírito de alguém.

Em sentido vital o espírito é aquilo que anima o corpo de qualquer ser, inclusive os animais,
Gn. 7.22 “Tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu.”, e isto retrata algo inerente ao ente existente e não um ente dentro do ente.  O espírito do homem não é o homem todo, mas formado dentro dele na concepção: Zc. 12.1 “Peso da palavra de Yahweh sobre Israel: Fala o Yahweh, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do homem dentro dele.” e portanto é parte integrante do ser, mas não é o ser completo.

A palavra ultrapassando o simples sentido de fôlego, mas não diferenciando ou excluindo o
espírito como inerência do ser, parece ocorrer em Gn. 26.35 quando diz: “E estas foram para Isaque e Rebeca uma amargura de espírito.” Mais tarde encontramos o Faraó aflito pelo sonho que teve em Gn. 41.38 “E aconteceu que pela manhã o seu espírito perturbou-se...”. Os sentimentos de Jacó também foram expressos pelo seu estado interior em Gn. 45.27 “Porém, havendo-lhe eles contado todas as palavras de José, que ele lhes falara, e vendo ele os carros que José enviara para levá-lo, reviveu o espírito de Jacó seu pai.” Também o rei “... Acabe veio desgostoso e indignado para sua casa ... Porém, vindo Jezabel, sua mulher, ter com ele, lhe disse: Que é isso que tens assim desgostoso o teu espírito e não comes pão?” I Reis 21:4, 5. A Bíblia fala do espírito de Nabucodonosor “No segundo ano do reinado de Nabucodonosor, teve este um sonho; o seu espírito se perturbou, e passou-se-lhe o sono. ...Disse-lhes o rei: Tive um sonho, e para sabê-lo está perturbado o meu espírito.” Daniel 2:1, 3, ainda em Ag. 1.14 “E o Yahweh suscitou o espírito de Zorobabel, filho de Sealtiel, governador de Judá, e o espírito de Josué, filho de Jozadaque, sumo sacerdote, e o espírito de todo o restante do povo, e eles vieram, e fizeram a obra na casa de Yahweh dos Exércitos, seu Deus”, dentre outras ocorrências, mas em todas essas aplicações percebe-se que o espírito não é um ente separado do ser, mas também não é todo o ser, mas uma faculdade do ser. Às vezes uma característica. Ainda que se fale coletivamente:
“espírito de todo o restante do povo”, a ideia de associação entre o indivíduo e o espírito é clara; o “ânimo” do povo.
Embora várias outras acepções possam ser atribuídas a palavra espírito, dependendo, claro, do contexto, percebe-se nitidamente que no que se refere a pessoas o espírito de alguém integra esse alguém e reflete, dentre outras coisas, o estado da alma e seus sentimentos ou, ainda, seu poder de
reação e atuação. O espírito de determinado ser é uma inerência desse ser, mas jamais uma pessoa à parte dele. Paulo disse:“Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei, como se estivesse presente...” (1 Co. 5.3) Claro que o apóstolo não estaria em dois lugaresao mesmo tempo, mas se Paulo, que era matéria, limitado pelo corpo, pôde dizer isso quanto mais Deus que é Onipresente pode falar de próprio Espírito. Maria ao dizer “E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lc. 1.47), não está falando de um segundo ser ou pessoa dentro dela, mas de seu ânimo interior. Ao dizer em Fl. 1.25 “A graça do Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito.” Paulo não parece querer falar de ninguém além de nós, ou que haja um grupo paralelo como um espelho de nossa existência que deveria receber também a graça, mas fala simplesmente a nosso respeito, nosso interior. E o Apóstolo ainda escreve: “Foi por isso que nos sentimos confortados. E, acima desta nossa consolação, muito mais nos alegramos pelo contentamento de Tito, cujo espírito foi recreado por todos vós.” (II Co. 7.13) Certamente ao falar de Tito e de seu espírito o apóstolo não estava se referindo a duas pessoas distintas. Assim, ao lermos I Co. 2.11 “Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.” podemos perceber com facilidade que o espírito do homem não é outro ente, à parte do homem, mas uma faculdade do homem dada por Deus na criação, e Este o fez a sua imagem e semelhança. O verso faz um paralelo, entre o homem e Deus, usando o autoconhecimento como ponto de comparação e afirma que somente o Espírito de Deus, sabe as coisas de Deus. Aqui vale a pena uma observação! Se o “espírito do homem” ali citado não é um outro ser dentro ou além do homem, precisamos atentar para o fato de que seguindo o paralelo o Espírito de Deus não é outro, um segundo ente ou ser, além do próprio Deus.👈📖⏳📚 No que concerne ao Espírito de Deus vemos diversas citações no Antigo Testamento como instrumento de capacitação e realização dos propósitos Divinos Ex. 35.31, Nm. 24.2,3, I Sm. 10.10, I Sm. 19.20-23. O que se percebe, na verdade, é Deus agindo, fazendo uso do que lhe é inerente, transmitindo àquelas vidas, através do Espírito, a capacidade de fazer determinada obra. Esse conceito é claro na Bíblia.

O Espírito de Deus é também chamado de Espírito Santo, isto é verificado com facilidade
nos relatos do batismo de Jesus, em Mt. 3.16 diz que “e viu o Espírito de Deus descendo como pomba” e em Lc. 3.22 diz “E o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba”, bem como em 1 Co. 12.3 “Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo.”

Aqui talvez seja oportuno destacar que a definição de quem ou o que era o Espírito Santo desde a antiguidade, não foi, como ainda não é, algo de fácil identificação, isto pode ser visto quando lemos os posicionamentos históricos acerca do Espírito. Por exemplo, o pesquisador Richard Ruberstein informa que no século IV, ou seja, praticamente 400 anos depois da morte de Cristo, entendia-se que “o Espírito Santo (que a maioria dos cristãos considerava como algum tipo de pessoa ou ‘ele’) fez renascer a controvérsia sobre a natureza do Filho. 

Os arianos radicais tinham certeza de que, sendo o Filho inferior ao Pai, assim também o Espírito Santo era inferior ao Filho. Basílio 738 chegou a admitir que os próprios líderes nicenos se sentiam indecisos ou divididos.”739. Gregório de Nazianzeno declarou “Em meio aos homens sábios entre nós, alguns o concebiam o [Espírito Santo] como uma energia, e outros como uma criatura, e alguns como um deus; e outros não sabiam qual destes seria. E por isso nem o cultuavam nem o tratavam com desprezo, mas assumiam uma posiçãoneutra.”740 Luigi Padovese registra “Ficaríamos ainda mais admirados ao constatar que não apenas os pneumatômacos741 e antes ainda os arianos consideram o Espírito Santo subordinado ao Filho, um anjo, mas que até um autor de grande profundidade e de indiscutível fé ortodoxa como Hilário de Poitiers jamais fala de 'pessoa divina', mas apenas de dom, de res 742 da natureza divina. Realmente, a fé no Espírito Santo como 'pessoa divina' se afirma bastante tarde”743.. O próprio Orígenes, informa Kelly, “havia ensinado, com base em Jo. 1.3, que o Espírito deve ser incluído entre as coisas que vieram a existir pela Palavra” 744 e na classe de escritores como Orígenes, segundo o trinitariano Charles Hodge, “Às vezes ele é identificado como o Logos; às vezes é representado como substância comum com o Pai e o Filho; às vezes, como o mero poder ou eficiência de Deus; às vezes, como uma pessoa distinta subordinada ao Logos, e uma criatura.” 745. Paul Tillich declara “Mesmo na história da doutrina cristã da trindade, houve vacilações entre o binário e o trinitário (a discussão sobre a posição
do Espírito Santo)” 746. Esequias Soares, conhecido escritor assembleiano, um defensor da pessoalidade do Espírito Santo, revela conhecer tais dificuldades ao dizer: “Não existia consenso sobre o Espírito Santo no Oriente nas primeiras décadas depois do Concílio de Niceia. Havia diversas interpretações. Uns diziam que as Escrituras Sagradas eram vagas sobre o assunto e por isso preferiam não se pronunciar; outros achavam que Ele era criatura; outros diziam que era um anjo; e outros, que era um espírito intercessor entre o Senhor Jesus e os anjos. Havia até triteístas entre eles ”.747 . Tais descobertas, principalmente as históricas testemunham, mais uma vez, em desfavor da tese que afirma ser o credo.de Niceia o estabelecedor de um consenso trinitário em 325 d.C, visto que mesmo alguém que só si tornou bispo em 356 d.C, que é o caso de Basílio, portando 30 anos depois de Niceia, e morreu as cinquenta anos de idade, pouco antes do concílio de Constantinopla, em 381 d.C, relata que havia muita indefinição naqueles dias sobre o Espírito Santo e uma minoria o entendia como sendo o próprio
Deus748, pois dos que não criam somava-se os arianos, que não eram nem mesmo binitários com relação ao Pai e ao Filho, e não o seriam em relação ao Espírito a quem consideravam subordinado ao Filho; muitos dos próprios nicenos que o viam ou como uma energia ou como uma criatura de Deus;
os pneumatômacos que o negavam ser uma pessoa, além dos indecisos que não o sabiam definir. O próprio Basílio modificou a doxologia usada em sua diocese, que “pôde ser usada como motivo para considerar o Logos e o Espírito como seres intermediários subordinados ao Pai” 749, para tentar alterar essa realidade, incluindo o Espírito Santo no processo de adoração: “A antiga doxologia dizia: ‘Gloria.seja ao Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo’ a doxologia de Basílio dizia: ‘Gloria seja ao Pai, como Filho, juntamente com o Espírito Santo’”.750. Esse bispo chegou, inclusive, a ser criticado por essa mudança, mas defendeu a divindade do Espírito Santo, “embora sem chamá-lo ‘Deus’”. Tudo isso reflete como as bases de um consenso trinitário foram sendo artificializados com o passar do tempo.
Portando, quando se ouvir que Niceia foi o concílio que consolidou a doutrina da trindade e que esta era comumente aceita pela maioria dos cristãos, saiba que esse tipo afirmação são um daqueles tipos de enganos que depois de repetido muitas vezes são tidos como verdadeiros.

Há poucas ocorrências da expressão “Espírito Santo” no VT, nas versões em português,
apenas três vezes, mas no NT é abundante e ocorre mais de noventa vezes. Como os testamentos são sequencia entre si, e, como vimos que o trato que Paulo deu a palavra espírito é o mesmo que Moisés o fez em seus relatos, então podemos concluir que não houve mudança de conceito do VT para o NT.

E vemos que assim como o Espírito de Deus, atuou por vontade do Pai, por ser dele procedente, na vida dos homens da antiguidade também vemos o mesmo acontecer nos dias de Jesus. A concepção
do Salvador se deu através do Espírito Santo Mt. 1.18. O próprio Jesus recebeu o Espírito Santo.
Vemos isso no seu batismo Lc. 3.22, e o Espírito não foi dado a Ele por medida Jo. 3.34 “Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida” e confirmado como cumprimento das profecias messiânicas em Mt. 12.18 “Eis aqui o meu servo, que escolhi, O meu amado, em quem a minha alma se compraz; Porei sobre ele o meu Espírito ...”. Deus comunicou de seu próprio Espírito, ou seja, do Espírito Santo a Jesus Cristo, passando este a ser, também, por concessão do Pai, o Espírito de Cristo. Pelo fato de Jesus passar a ter o Espírito Santo, ele pôde dizer em conformidade com I Co. 2.11 as palavras contidas em Lc. 10.22 “... ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”, isto não eleva Jesus a condição do Eterno Deus, como também não eleva os crentes que recebem o mesmo Espírito, mas informa que Ele O conhece e o Pai a Ele, pois comungam do mesmo Espírito e isto se confirma em Rm. 8.9 “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.”

Esse Espírito que o Pai partilhou com o Filho “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o
Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os
oprimidos do diabo, porque Deus era com Ele” (Atos 10:38), derramou também sobre nós At. 2.16,17 “Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu
Espírito derramarei sobre toda a carne...”, daí decorre que o Espírito Santo é a porção de Deus em
seus fiéis, promovendo a íntima comunhão entre os crentes, e por isso somos Templos de Deus, I Co.
3.16 “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”. Como o
apóstolo Paulo conhecia bem o conceito de espírito, por ser um zeloso estudante das Escrituras, sabia
perfeitamente que o espírito de alguém é parte inerente desse alguém e não um outro alguém de modo que mais adiante escreveu em I Co. 6.19 “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito
Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?”. Assim ao nos
tornarmos templos do Espírito Santo, nos tornamos templos de Deus, pois o Espírito é de Deus. E é
através do Espírito que o Pai e o Filho habita em nós Jo. 14.23 “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se
alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele
morada” Como o Filho tem origem em Deus por geração sendo portanto uma pessoa distinta do Pai, o Espírito Santo também tem origem em Deus, mas por processão, pois é seu próprio Espírito e não
uma pessoa à parte DELE, assim está mais que apropriado a promessa de Jesus acerca do Consolador.
O imensurável Deus, cujo céus e a terra não o podem conter (Ap. 20.11) não viria pessoalmente
habitar os discípulos, mas enviaria à semelhança do Filho e a pedido deste outro consolador, o seu
Espírito, Jo. 14.16 “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre”. Deve-se registrar o verso 17 que diz: “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós ”. O Espírito Santo já habitava com os discípulos através de Jesus Cristo, pois este o havia recebido do Pai, daí o Senhor afirmar que “habita convosco”, mas com a assunção de Jesus aos céus, a promessa passa a ser “estará em vós” e tornar-se-ia o penhor de nossa salvação Ef. 1.13,14 “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança...”
Em Jo. 16. 13 lemos “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda
a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há
de vir”, mostra que assim como o espírito do homem não é todo o homem, o Espírito de Deus procede do Deus espírito, mas não é ELE próprio em sua inteireza; pois não falaria ou comunicaria de si mesmo mas daquilo que receber do Filho que por sua vez o tem por concessão do Pai. O Espírito
Santo na igreja é a porção do próprio Deus em nós. Não um outro ente, nem um outro ser, mas a
comunicação da Eternidade com a finitude. Perceba que do Espírito Santo não se pode alegar que
houve algum esvaziamento da “divindade” para que ele deixasse de ter autonomia para falar de si
mesmo, mas mesmo assim a Bíblia diz que ele não falaria de si mesmo, isso prova que ele não é auto-
independente e veio para representar Cristo. E como porção de Deus, é o Espírito Santo que prescruta o Eterno, transmite o que recebe DELE para a humanidade.

Muitos usam os versos do evangelho de João, e alguns outros, para tentar provar que o
Espírito Santo é uma pessoa e alguém do gênero masculino, assim como o Pai e o Filho, apesar da
palavra “espírito” em grego ser neutra, porque textos como Jo. 14.26751, 15.26752 usam “ἐκεῖνος”, uma palavra do gênero masculino, para se referir ao Espírito Santo. Charles Hodge faz esse tipo de defesa ao dizer “não há possibilidade de considerar o uso do pronome pessoal ele (ekeinos) em nenhuma outra base que não a da pessoalidade do Espírito Santo” 753. Wayne Grudem segue a mesma linha: “Hápassagens em que o pronome ele (gr., ekeinos) é aplicado ao Espírito Santo (Jo 14.26; 15.26; 16.13,14), o que não seria de esperar pelas regras de gramática grega, pois a palavra espírito (gr.,pneuma) é neutra, não masculina, e normalmente estaria relacionada ao pronome neutro ekeino”754.


Em textos bíblicos como os indicados é feita a reivindicação da ocorrência de Constructio Ad
Sensum755, onde a gramática não segue a regra de sintaxe, mas o sentido ou, nesse caso, o gênero
natural. A proposta de Hodge é que apesar de pneuma ser neutro, o Espírito é considerando
masculino, por isso o demostrativo “ekeinos”, que é um masculino, foi usado atestando sua
pessoalidade, onde o gênero natural da ideia teria sobreposto o gênero da palavra pneuma. Mas o
detalhe que passa desapercebido ou é indevidamente desconsiderado nesse caso é que ekeinos não está referenciando πνεῦμα (pneuma), mas παράκλητος (parakletos), que é, também, masculino. E essa palavra, contextualmente, pode indicar uma personificação, o que descartaria a ideia de se entender o Espírito Santo como um ente do gênero masculino. Concordam com o fato desses textos não poderem ser usados para sugerir o Espírito Santo seja uma pessoa e ainda do gênero masculino, por exemplo, o Dr. Daniel B. Wallace, um trinitário, na obra Greek Grammar and the Personality of the Holy Spirit,
quando, apesar de defender a pessoalidade do Espírito, escreve: “Não há texto no NT que claramente ou mesmo provavelmente afirme a personalidade do Espírito Santo através da rota da gramática grega” 756. Alinham-se a essa declaração os doutores Andrew David Naselli e Philip R. Gons. Eles embora defendam que “O testemunho consistente das Escrituras é que o Espírito Santo é uma pessoa,” não chegam a essa conclusão pela via gramatical, e, na verdade, a rejeitam para esse fim ao dizerem:
“o uso de João de ἐκεῖνος em João 14:26, 15:26 e 16: 13–14 não tem absolutamente nenhuma
influência sobre o assunto. Uma análise cuidadosa dos textos em seus contextos com sólidos princípios
de gênero gramatical demonstra inequivocamente que o antecedente de ἐκεῖνος é o masculino
παράκλητος. O gênero dos substantivos e pronomes nestes capítulos nem apoiam nem desafiam a
doutrina da personalidade do espírito. É hora de colocar este argumento errado para dormir de uma
vez por todas”757 (destaquei).

Por outro lado, a reivindicação de constructio ad sensum se bem apurada pode, na verdade,
trazer indício da ausência de pessoalidade ou personalidade própria ao Espírito Santo.
Apesar de πνεῦμα ser uma palavra neutra, por si só, não condiciona que “Espírito Santo”
seja entendido como algo em vez de alguém e vice-versa, pois, por exemplo, τέκνον, que significa
criança ou filho, é neutro. Mas, diante dessa possibilidade, temos que o constructio ad sensum ocorre também em conexão com substantivos neutros, e estes podem se referir a entes pessoais ou revestidos de personalidade própria. Como exemplo disso temos Jo. 6.9: “ἔστιν παιδάριον ὧδε ὃς ἔχει πέντε ἄρτους”. O texto fala da pessoa que trouxe os cinco pães. A palavra “παιδάριον” (jovem) é neutra e pode estar se referindo a um rapaz ou a uma moça. A tradução pelo termo “rapaz” tem por base o pronome “ὃς” (o qual), que aparece na sequência, indicando o gênero natural de quem trouxe os pães, apesar do neutro “παιδάριον” ali. Outro exemplo de constructio ad sensum pode ser visto em Mc.
9.24,25. Nesse verso na expressão “εὐθὺς κράξας ὁ πατὴρ τοῦ παιδίου ἔλεγεν”, que fala daquele
pai que pediu cura para a criança endemoniada, consta o genitivo de παιδίον que por ser neutro não
nos informa se se tratava de um menino ou uma menina. A tradução pelo termo no sexo masculino,
“menino”, decorre do pronome “αὐτόν”, que é acusativo masculino e se refere ao gênero natural doque fora curado. Quando se usa linguagem figurada ocorre o mesmo: Em Ap. 13.12 encontramos “προσκυνήσουσιν τὸ θηρίον τὸ πρῶτον, οὗ ἐθεραπεύθη ἡ πληγὴ τοῦ θανάτου αὐτοῦ”, no trecho que fala da adoração que se dará a primeira besta, essa expressão “primeira besta” é, em grego, “τὸ θηρίον τὸ πρῶτον”, ou seja, um neutro, mas ao dizer de quem a chaga mortal foi curada o escritor inspirado usa o pronome masculino “οὗ” (do qual). Isso que ocorre inúmeras vezes na Bíblia com substantivos neutros (com uso literal ou figurado), indicando pessoalidade e gênero com um pronome, artigo e etc, relacionado diretamente aos substantivos neutros NÃO OCORRE com a expressão “τὸπνεῦμα τὸ ἅγιον”. Ou seja, não há referência pessoalizada do ponto de vista gramatical com relação
ao Espírito Santo.Além do mais, se focarmos a questão da deidade, há perguntas importantes a serem feitas acerca do Espírito Santo.

A maioria dos cristãos da atualidade sustenta que ele seja ou pessoa ou hipóstase, e, o próprio
Deus, juntamente com as pessoas do Pai e do Filho. 

Mas, acerca do Filho já vimos não ser cabível
dizer que Ele seja Deus consubstanciado com o Pai. Então, o que dizer do Espírito Santo?
Bem, At. 5.3 e 4 é invariavelmente o primeiro da lista para se afirmar que o Espírito Santo é
Deus, de igual modo ao Pai, mas, certamente, é conveniente meditarmos nesse trecho de Atos. Neles lemos: “Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? … Por que formaste este desígnio em teu
coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.” 

🤔Muitos querem ver nessas palavras uma afirmação de identidade plena entre o Espírito Santo e o próprio Deus, como seres distintos em composição de um Deus plural, mas essa forma de expressão usada no livro de Atos, ou seja, falando de um e apontando outro não é estranha ao seu escritor Lucas, pois ele no evangelho, que leva seu nome,escreveu: “E disse-lhes: Qualquer que receber este menino em meu nome, recebe-me a mim; e qualquer que me receber a mim, recebe o que me enviou...” (Lc. 9.48) ou, ainda, “Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc. 10.16). Ora, a mentira de Ananias foi diretamente aos apóstolos, especificamente a Pedro, mas daí surge a expressão “Não mentiste aos homens...”. O interessante é notarmos que era isso que Ananias pensava haver feito; mentido apenas aos homens. Ora, o fato de Ananias haver mentido a homens e depois Pedro dizer que ele, na verdade, mentiu ao Espírito Santo e depois diz-se que ele mentiu a Deus, não faz dos homens o Espírito Santo (já que a mentira tinha sido dita a homens) como não faz do Espírito Santo um ente identificado como o próprio Deus. De modo similar alguém que rejeita as palavras evangélicas ditas por um crente pensa rejeitar ou resistir ao crente quando, na verdade, está rejeitando a Deus. Lembremos que o Espírito Santo era quem movia e move a ação de comunhão na congregação, de modo que as iniciativas dos apóstolos eram ações do Espírito (“Ele vos guiará...” - Jo. 16.13). Tenhamos em mente que o Espírito Santo é o representante de Deus na vida de Jesus, e o representante de Jesus entre seus discípulos após sua ascensão. Mentir aos apóstolos mentir ao Espírito Santo que representa Jesus e por consequência é mentir a aquele que enviou o seu Espírito (Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome... Jo. 14.26), ou seja, é mentir a Deus. De modo que não há razão para ver nesses versos de Atos um terceira pessoa da trindade consubstanciada com o Pai.

Se o Espírito Santo é Deus em pessoa, por que as Escrituras não ensinam orar a ele? Já
vimos no capítulo “Orar a Jesus, a Deus ou a Ambos?” que a Bíblia nos ensina orar a Deus em
nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Logo, orar ao Espírito Santo seria orar a quem a Bíblia não
aponta ou não orienta como o fim de nossas orações, constituindo-se, inclusive, uma desobediência ao ensinamento de Cristo que nos manda orar ao Pai, o que mostra não ser ele o próprio Deus.

A Bíblia não nos manda servir cultualmente ou adorar o Espírito Santo. Não nos manda
pedir nada em nome do Espírito Santo. Em lugar algum das Escrituras se vê alguém adorando o
Espírito Santo ou sendo mandado adorar o Espírito Santo. É possível ler na grande maioria daliteratura pró trindade a afirmação de que “Jesus foi adorado” ou “adora-se Jesus”, mas nessa mesma
literatura não se encontrará frases semelhantes com relação ao Espírito Santo.

“Ele” não fala à congregação cristã suas próprias palavras, o que equivale a dizer que não é alguém autônomo, mas recebe daquilo que é do Pai, através de Cristo, para comunicar ao povo e convencer o homem. Jo. 16.13 “...porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir.” A propósito, vemos na Bíblia expressões como “Eu, Jesus” (Ap. 22.16), “Eu, Yahweh” (Lv. 20.26), até o anjo diz: “Eu sou Gabriel” (Lc. 1.19), mas não há uma única ocorrência na Bíblia “eu, o Espírito Santo” ou “Eu sou o Espírito Santo”. Aqui vale observar que alguns o consideram pessoa por causa da personalização descrita em Jo. 16 ou Jo. 14, mas será, por exemplo, que a sabedoria que bradava nas praças na época em que Salomão escreveu o primeiro capítulo de Provérbios era uma pessoa por causa da forma como ela foi retratada? “20 A sabedoria clama lá fora; pelas ruas levanta a sua voz. 21 Nas esquinas movimentadas ela brada; nas entradas das portas e nas cidades profere as suas palavras: 22 Até quando, ó simples, amareis a simplicidade? Evós escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós insensatos, odiareis o conhecimento? 23 Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei abundantemente do meu espírito e vos farei saber as minhas palavras.” (Observe-se que em Prov. 8:22 a 30, a sabedoria é um símbolo de Cristo, em paralelo com I Cor. 1:24, “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus”).

Outros exemplos: “Os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as
árvores do campo baterão palmas.” (Is. 55.12).
Montanha canta? Árvore bate palmas?
“Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade,
dos céus a justiça baixa o seu olhar.” (Sl. 85.10,11).
Talvez digam que pelo fato do Espírito ser de Deus, então, deve ser considerado uma pessoa
à parte com individualidade própria, mas se deve ser assim o que dizer dos registros bíblicos sobre a
alma de Deus?

No livro de Juízes 10.16 lemos: “E tiraram os deuses alheios do meio de si, e serviram a Yahweh; então se angustiou a sua alma por causa da desgraça de Israel.”

 Se o espírito de Deus é um ser, uma terceira pessoa ou hipóstase por causa da personificação dele em determinados textos, então, a Alma de Deus seria a quarta pessoa.
Encontramos em Pv. 6.16: “Estas seis coisas Yahweh odeia, e a sétima a sua alma abomina”.

Se a mera atribuição de ações pessoas aplicadas ao Espírito fosse uma confirmação de individualidade
pessoal, então, precisamos admitir o mesmo para a Alma de Deus. A simples pesquisa do que significa
alma e do que significa espírito deveria por fim a essa questão, mas a falta de uniformidade no trato
com as coisas impede a linha trinitária dessa admissão.
Em Isaías 1.14 é dito “As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia;
já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer”. A Alma de Deus odeia as práticas religiosas do
Israel apóstata, mas isso significa que a Alma de Deus é uma outra pessoa em Deus?
Is. 42.1 “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha
alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios”. Esse verso profético é repetido em Mt.
12.18 como sendo cumprido em Cristo. A pergunta que deveríamos fazer acerca do Espírito de Deus
é: Porque a Alma de Deus nesse verso não é uma pessoa individualizada dentro da Deidade, mas o
Espírito de Deus é? Note-se a alma e o espírito de Deus estão lado a lado na fraseologia e não há
qualquer razão textual para acharmos que um texto se refere uma outra pessoa em Deus e outro ao não.
Jr. 6.8 “Corrige-te, ó Jerusalém, para que a minha alma não se aparte de ti, para que não te
torne em assolação e terra não habitada” Ora, por que o Espírito de Deus ao se dizer que ele seentristece revela sua pessoalidade, mas não podemos dizer o mesmo acerca da Alma de Deus quando ela se afasta dos servos de Deus? Por que essa última deve significa que é próprio Deus em pessoa, ou o sentimento de Deus, e aquele não pode significar o próprio Deus, ou o poder de Deus, mas uma outra pessoa em Deus? Percebem o uso de dois pesos e duas medidas para não “criar” uma quarta
pessoa da trindade?
Outros versos onde podemos ver atributos pessoas imputados a Alma de Deus aparecem em:
Jr. 9.9, 15.1.
Acerca do Espírito de Deus outras perguntas podem ser levantadas: Onde está o seu trono? 

O Pai e o Filho são mostrados na Bíblia como tendo um trono onde sentam-se (Ap. 22.1 etc),
independentemente de ser em sentido espiritual ou não. O Espírito Santo, porém, não tem um trono.
Quando Estevão é apedrejado ele vê a glória do Pai e o Filho assentado à direita de Deus, mas não vê
o Espírito Santo lá. Alguns podem alegar que ele estava com a igreja por isso não estava em um trono, mas isso é desterrado pela reivindicação de onipresença do Espírito como Deus, que segundo dizem os trinitarianos, é consubstancial com o Pai. 

Mesmo se ignorarmos a questão da onipresença
perceberemos que em Apocalipse, na revelação do estado futuro e eterno, só se fala do trono de Deus
e do Cordeiro Ap. 22. 3 “E ali nunca mais haverá maldição contra alguém; e nela estará o trono de
Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão.”, mas não se fala do trono do Espírito Santo, aliás nem a expressão “Espírito Santo”, nem “Espírito de Deus” aparece em Apocalipse. Lá encontramos a
expressão “o Espírito” e “os sete espíritos de Deus”, se a expressão plural significar o Espirito Santo
pela leitura de Ap. 3.1 “E ao anjo da igreja que está em Sardes escreve: Isto diz o que tem os sete
espíritos de Deus, e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto.”,
vemos ele(s), os sete espíritos, diante do trono e não no trono, Ap. 4.5 “E do trono saíam relâmpagos,
e trovões, e vozes; e diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo, as quais são os sete espíritos de
Deus”. Em outro momento diz que são “enviados a toda a terra.”, mas em nenhum momento há um
trono para o Espírito Santo.
Os 144 mil, em Apocalipse 14.1, terão o nome do cordeiro e de seu Pai. Porque não o nome
da suposta terceira pessoa da trindade?
Qual é o seu nome? Embora saibamos que o Pai é designado com vários nomes ou títulos, há
um que ocorre em torno de 7.000 vezes na Bíblia para identificar a Deus, e o vemos revelado pelo
próprio Deus em Ex. 6.3 “E eu apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó, como o Deus Todo-Poderoso;
mas pelo meu nome, Yahweh, não lhes fui perfeitamente conhecido”. Do mesmo modo Jesus, há outros termos pelo qual é conhecido, mas seu nome, que ocorre quase 1.000 vezes no NT, foi dado pelo ser angelical na anunciação em Mt. 1.21 “E dará à luz um filho e chamarás o seu nome Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”. A palavra “NOME” no que se refere ao Pai e ao Filho é
associável, realmente, não somente a autoridade, mas, também, as suas identificações nominais ou
pessoais. Porém, ao Espírito Santo não é atribuído um nome, nem é dito na Bíblia, em lugar alguma,
que seu nome é Espírito Santo. Talvez alguém pense em Mt. 28.19, mas ali Pai não é nome, como
Filho não é nome, e de igual modo Espírito Santo não é nome. Ali se fala de autoridade, não de
identidade nominal. Por vezes ele é chamado apenas de Espírito, por vezes de Espírito de Deus, ou mais frequentemente, no Novo Testamento, de Espírito Santo, mas nenhum desses é designado como sendo o NOME dele.
Se o Espírito Santo é identificado dessa forma na Bíblia, por que, então, as pessoas o
consideram como sendo Deus e a terceira pessoa da “trindade”? Para entender como se chegou a esse
ponto é necessário buscarmos na história eclesiástica, não na Bíblia (já que nela isso não se afirma), a origem dessa crença. Diz Hermisten Maia: “Entre o Concílio de Niceia (325) e o de Constantinopla (381), a declaração explícita de que o Espírito é Deus foi apenas sugerida, porém não declarada.

 Em 372, Basílio Magno (c. 330-379), defensor ardoroso da divindade do Filho, também sustentou adivindade do Espírito, porém não foi tão incisivo ao ponto de identificá-lo como Deus.”
758 , Kelly chega a informar, sobre os escritos de Basílio acerca do Espírito que “Em lugar algum o Espírito é chamado
Deus, nem Sua consubstancialidade é afirmada explicitamente.”
759, ainda que afirme que “Ele não é
estranho à natureza divina760”. Assim, percebemos que isso não aconteceu oficialmente antes do ano
de 381 d.C. Quando Teodósio tornou-se único imperador de Roma em 379 d.C decretou a fé nicena, aquela determinada pelo Concílio de Niceia, em 325 d.C, onde se considerou Jesus igual, em
substância, a Deus como fé oficial do império. Em Niceia o Espírito Santo não foi cogitado como
integrante da Deidade, o que mostra ser lenda a ideia de que os concílios só fizerem ratificar a crença comum na trindade, pois se fosse comum não precisaria de um decreto mais de 50 anos depois de Niceia, beirando quase 400 anos d.C, para validá-la. No entanto, o reconhecimento por decreto não era do agrado do clero, assim, Teodósio convocou um concílio apenas com favoráveis a determinação do Imperador e aprovou com facilidade, em 381, d.C, a “inclusão” do Espírito Santo na Deidade. Só foram precisos 150 bispos para isso761. Depois dessa ação do imperador foi aberto o caminho para a Teologia do Espírito onde se buscou associar tudo quanto possível para elevar o Espírito Santo ao status de Deus pleno consubstante com o Pai. Qualidades inerentes a Yahweh, o Pai, tentou-se atribuir
a ele como um ser distinto de Deus, como por exemplo: 1) ETERNIDADE, pela leitura de Hb. 9.4
“Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus...”,
essa conclusão, no entanto, parece não haver levado em consideração a aplicação da palavra “eterno” dentro da Bíblia, pois acerca de Yahweh se diz no Sl. 90.2 “Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus.”, ou seja, da eternidade passada a eternidade futura só Yahweh. A Expressão “Espírito eterno” não assegura a eternidade pretérita do Espírito como um ente separado do Pai, assim como “fogo eterno” não assegura eternidade pretérita ao lago de fogo ou ao inferno, como se pode ler em Mt. 18.8 “Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno.” A não ser que o lago de fogo seja, também, co-eterno como Deus, o que não é provável, a palavra “eterno” não está se
referindo a existência pretérita indefinida do Espírito como um ente separado de Deus. Vemos
também o uso da palavra “eterno” sem conotação de eternidade pretérita em II Co. 4.17 “Porque a
nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente”. 2)
ONISCIÊNCIA, pela leitura de II Co. 2.10 “Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o
Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.” aqui para chegar a conclusão de onisciência do Espírito Santo, ignorou-se alguns dados do próprio versículo que serviu de referência.

Está escrito nele “Mas Deus no-las revelou...”, então, de cara, vemos que o conhecimento original
parte de Deus. O Espírito é o instrumento dessa revelação. A parte final do verso que fala em
“penetrar...as profundezas de Deus” não está desassociado da parte inicial que diz: “Deus no-las
revelou”. O que quer que o Espírito prescrute não é a revelia da vontade do Pai visto ser o Espírito
Santo o Espírito do próprio Pai que é “Aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do
Espírito, pois é de acordo com Deus que ele intercede em favor dos santos” (Rm. 8.27 - CNBB). A
prova da dependência do Espírito com relação as ações atribuídas a ele para com Deus, o Pai, é vista
em Jo. 16.13 “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade;
porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir”.
Assim, o que ele sabe é provindo de Deus. 3) Para ONIPOTÊNCIA do Espírito, devido à inexistência
de um versículo explícito, geralmente se usa Lc. 1.35 “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, quede ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.”, mas se esse versículo for a prova da onipotência do Espírito Santo, então, quem defende esse ponto de vista está em dívida com o seu propósito, pois o trecho de Lucas não fala sobre onipotência; aqui o Espírito Santo é aquele que traz a virtude de quemo enviou, o Altíssimo, e a Bíblia nos diz quem é o Altíssimo ao registrar em Gn. 14.22 “ ... Levantei minha mão a Yahweh, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra” ou ainda Sl. 7.17 “Eu louvarei a Yahweh segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome de Yahweh altíssimo”, dentre
outros versos. Outro verso onde se alega onipotência do Espírito Santo, mas com menor incidência, é Gn. 1.2 que acredito ser desnecessário comentar, visto que nem de longe traz a ideia de onipotência para o Espírito, além das possibilidades de traduções permitirem outros entendimentos que afastam ainda mais essa possibilidade, como a tradução por “vento”, “alento” e etc., como já vimos. 4) Para ONIPRESENÇA se usa Sl. 139.7 que diz: “Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?”, é oportuno notar a compreensão de desse versículo por tradutores católicos, portanto da religião que não tem interesse em negar a trindade. Na Bíblia de Jerusalém, por exemplo, o versículo
foi traduzido assim: “Para onde ir, longe do teu sopro?”, a Bíblia do Peregrino verteu “Para onde me afastarei do teu alento?”, a TEB: “Aonde irei, para estar longe do teu sopro?”, percebemos nessas
versões que a palavra “ruach” do original hebraico foi entendida como “alento” ou “sopro” e não como
o “Espirito Santo”, ou seja para os católicos tais palavras nada tem a ver com uma possível
onipresença do Espírito Santo, até porque não foi usada essa expressão “Espírito Santo” nesse Salmo,
mas ainda que se mantenha “espírito” e seja entendido ali Espírito Santo, contrariando as versões apresentadas, o que por si já demostra falta de uniformidade e consenso no que concerne ao Espírito como sendo onipresente, o que o contexto mostra, na verdade, é que se for possível esconder-se do Espírito, não seria possível se esconder de Yahweh, que é a quem o salmista se dirige, pois pela onipresença real ELE estaria lá nesse esconderijo, por isso se diz “Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também”, o pronome “TU” refere-se a quem o salmista dirigia o seu louvor, tal personagem é indicado no verso 4 do Salmo: “Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Yahweh, tudo conheces”. Assim, aonde quer que o Espírito esteja, estará porque Yahweh o terá feito estar e não porque é uma pessoa a parte com inerência e autonomia de poder. CRIADOR - Costumam usar, novamente Gn. 1.2, desta feita, para dizer que ele criou todas as coisas, mas nesse verso de Gênesis, não se diz nem de forma indireta que o Espirito Santo é o próprio Criador. Buscam ainda Jó 33.4 “O Espírito de Deus me fez; e a inspiração do Todo- Poderoso me deu vida”, mas ao lermos em conjunto com Sl. 104.30 “Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” percebemos que o ato de criação não é um ato de vontade do Espírito, mas de QUEM o enviou para que as coisas fossem criadas, e, no mesmo Salmo, além da própria abertura do cântico no verso primeiro, temos o versículo 24 que de forma muito clara diz quem, de fato, é o Criador: “Ó Yahweh, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas.”
Também se reivindica coigualdade do Espírito Santo com Jesus e consequentemente com
Deus através da expressão de Jo. 14.16 “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para
que fique convosco para sempre”, pois “outro” é tradução do grego “ἄλλον” que costumam
subentender como “da mesma essência”, “da mesma espécie” ou “da mesma existência”, mas veremos que ainda que se possa entender essa palavra como “outro igual”; “igual” ali não significa coigual no sentido de consubstancial. Considere, por exemplo, o que a obra Exegetical Dictionary of New Testament de Gerhard Schneider anota sobre “ἄλλος”: “no sentido neutro significa outro ou (vários) outros, uma pessoa ou pessoas além do falante(s) ou pessoa(s) mencionada ou implícita no contexto.

 A palavra também pode significar diferentes em espécie, por exemplo, Mt. 2.12; Mc. 14.58, Jo. 10.16, I
Co. 15.39-41, etc. A existência ou a possibilidade, mesmo teórica, de coisas adicionais ou pessoas de
um tipo particular, de algo idêntico ou da mesma natureza ou valor é negado.”762 (grifos e destaques
são meus). Note-se, por exemplo, Mc. 10.12 “E, se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro,adultera”, a palavra “outro” é “ἄλλον” (allon), mas certamente a questão ai não tem a ver com mesma essência e nada pode ter haver com “espécie”, pois todos os homens (mulheres inclusas) são da mesma espécie, assim ela não iria buscar um marido da mesma essência daquele de quem se separou. Outras ocorrências pertinentes podem ser observadas: At. 2.13,14 “E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? 13 E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto.” Nesses versos quando se diz: “dizendo uns para os outros” a expressão é vertida do original “ἄ λλος πρὸς ἄλλον λέγοντες·”, e quando se diz, no verso 13, “E outros, zombando diziam...”
vem do grego: “ἕτεροι δὲ διαχλευάζοντες”. Perceba que nem “ἄλλος”, nem “ἕτερος” objetivou falar
sobre essência, espécie ou substância do ser, pois todos eram humanos, e por isso tanto “ἄλλος”
quando “ἕτερος” estavam atrelados sem abordagem de substância, o que prova que tais palavras não determinam igualdade ou diferença na substância ou essência, mas igualdade ou diferença no grupo a que determinado indivíduo pertence763. O primeiro grupo, embora da mesma natureza humana do segundo grupo, era composto dos que estavam admirados com o acontecimento, portando iguais entre si, e o segundo era composto dos que estavam contra, zombando do fenômeno, por isso eram “outros” diferentes do primeiro grupo, mas, evidentemente, absolutamente nada tem a ver com natureza essencial desses indivíduos, já que todos eram humanos. Se um exemplo mais incisivo precisar se dado, então, analisemos um caso em que, ao se considerar “ἄλλος” como consubstancial, geraria um problema sério à fé cristã: II Co. 11.4 quando se diz: “Porque, se alguém for pregar-vos outro (ἄλλον) Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro (ἕτερον) espírito que não recebestes, ou outro
evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis.” Perceba que se “ἄλλον” significar sempre outro igual764 e de mesma natureza não haveria razão para rejeitarmos esse outro (ἄλλος) Jesus, pois seria da mesma Essência Santa do Cristo que conhecemos, mas vemos pela conclusão do verso que isso não é verdade. Aquele “ἄλλος” se refere a um Jesus diferente e não a um com a “mesma natureza” ou “essência”. Outro detalhe importante e percebível nesse mesmo verso é que tanto “ἄλλος” quando “ἕτερος” foram usados intercambialmente no grego koiné. Nesse verso ao se falar do espírito se usa a palavra “outro”, mas o termo vertido é “ἕτερος”. Assim, como se percebe, os versículos que “provam” a existência de atributos de Deus no
Espírito Santo, como um ente separado do próprio Pai, são inexistentes e os poucos que se usam para
esse fim não tem base segura, e quem faz usos destes estão muito mais baseados na parcialidade de suas vontades do que na, explicitamente descartável, evidência textual.
Outra forma da busca de igualdade é aquela já comentada sobre a comparação de pessoas.
Para mais informações sobre as falhas dessa forma de analisar as coisas leia, por favor, o capítulo “O
Paradigma da Comparação é Seguro? Yahweh é Jesus?”



Bibliografia: 


737 Jaroslav Pelikan em A Tradição Cristã, Vol 1 – Uma História do Desenvolvimento da Doutrina – O Surgimento da 

Tradição Católica 100-600, 1ª Edição 2014, Ed. Shedd, pág. 49.738 Basílio de Cesaréia, um dos Padres Capadócios, que mais tarde elaboraram a fórmula “uma essência e três 

hipóstases”.

739 Richard E. Rubenstein em Quando Jesus se Tornou Deus – Editora Fisus – 2001, pág. 247/248

740 O texto grego original consta da Quinta Oração Teológica de Gregório de Nazianzeno, 31.5: “Τῶν δὲ καθ 'ἡμᾶς 

σοφῶν οἱ μὲν ἐνέργειαν τοῦτο ὑπέλαβον, οἱ δὲ κτίσμα , οἱ δὲ θεόν , οἱ δὲ οὐκ ἔγνωσαν ὁπότερον τούτων, 

αἰδοῖ τῆς γραφῆς, ὥς φασιν, ὡς οὐδέτερον σαφῶς δηλωσάσης. Καὶ διὰ τοῦτο οὔτε σέβουσιν, οὔτε ἀτι 

μάζουσι, μέσως πως περὶ αὐτοῦ διακείμενοι, μᾶλλον δὲ καὶ λίαν ἀθλίως” (grefei)

741 Nome dado aos que negavam a divindade do Espírito Santo

742 Res, lat.: posse, propriedade, bem, patrimônio, coisa (em oposição a pessoas). [Dicionário Latino Português de 

Francisco Torrinha]

743 Padovese, Luigi em Introdução à Teologia Patrística – Edições Loyola, pág. 75

744 Doutrina Centrais da Fé Crista, pag. 198.

745 Charles Hodge em Teologia Sistemática, Editora Hagnos - 1ª Edição 2001, pag. 340746 Paul Tillich em Teologia Sistemática, Editora Sinodal, 2005 – 7ª Edição, pág. 325.

747 Esequias Soares em A Razão de Nossa Fé – Assim Cremos, Assim Vivemos, CPAD – 2ª Impressão, 2017, pág. 79

748 Aqui ainda se pode dividir entre aqueles que entendiam que Espirito Santo era outro nome para Deus e aqueles que 

achavam que ele era outra pessoa mas que participava da Deidade.

749 Theodor Schnheider (org) em Manual de Dogmática – Volume II, 5ª Edição , 2001 – 5ª Reimpressão 2018, pág. 439

750 Justo L. González em “Uma História do Pensamento Cristão, Ed. Cultura Cristã, 2ª Edição Revisada, 2015, vol. I, 

pág. 287751 ὁ δὲ παράκλητος τὸ πνεῦμα τὸ ἅγιον, ὃ πέμψει ὁ πατὴρ ἐν τῷ ὀνόματι μου ἐκεῖνος ὑμᾶς διδάξει πάντα καὶ 

ὑπομνήσει ὑμᾶς πάντα ἃ εἶπον ὑμῖν ἐγώ (UBS 3ª Edição)

752 Ὅταν ἔλθῃ ὁ παράκλητος ὃν ἐγὼ πέμψω ὑμῖν παρὰ τοῦ πατρὸς, τὸ πνεῦμα τῆς ἀληθείας ὁ παρὰ τοῦ 

πατρὸς ἐκπορεύεται, ἐκεῖνος μαρτυρήσει περὶ ἐμοῦ753 Charles Hodge em Teologia Sistemática, Editora Hagnos – 2001, 1ª Edição, pág. 391.

754 Wayne Grudem em Manual de Teologia Sistemática, Editora Vida – 2001, pág. 102

755 Construção gramatical de acordo para o sentido ou, em certos, casos “de acordo com o gênero natural”

756 Bulletin for Biblical Research 13.1 (2003) 97-125 [© 2003 Institute for Biblical Research], pág. 122.

https://www.ibr-bbr.org/files/bbr/BBR_2003a_05_Wallace_HolySpirit.pdf

757 Prooftexting The Personality Of The Holy Spirit: An Analysis Of The Masculine Demonstrative Pronouns In 

John14:26, 15:26, And 16:13–14, pág. 89 [DBSJ 16 (2011): 65–89] - 

http://andynaselli.com/wp-content/uploads/2011_prooftexting.pdf758 Hermisten Maia Pereira da Costa em Eu Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo, Edições Paraketos, 1ª Edição – 

2002, página 388.

759 J.N.D. Kelly em Doutrina Centrais da Fé Crista, Edições Vida Nova, 1994 - pag. 196/7.

760 Idem.

761 “... o concílio de 381 não é, na origem, propriamente um concílio ecumênico, só se tornando tal por força da recepção 

de que é objeto a partir de Calcedônia.” (Histórias do Concílios Ecumênicos, pág. 14)762 Apud. Gerhard Schneider, Exegetical Dictionáry of New Testamente, Edited by Hors Balz, 245.


763 Mesmo isso não é rígido no Novo Testamento, pois em I Co. 12 quando se fala da distrição dos dons espirituais 

vemos ἄλλος (v.8) e ἕτερος (v.9) usados para indivíduos do mesmo grupo de cristãos, a Igreja.

764 Outra ocorrência que prova a desobrigatoriedade de “allos” significar outro da mesma essência é I Co. 15.39 “Nem 

toda a carne é uma mesma carne, mas uma é a carne dos homens, e outra (ἄλλη) a carne dos animais, e outra (ἄλλη) 

a dos peixes e outra a das aves.” Fica evidente que “allos”, que foi concordou com o feminino, foi usado para mostrar 

“carnes” diferentes e não da mesma espécie.

Comentários

Postagens mais visitadas