QUEM CRIOU TODAS AS COISAS?

 

●•°▪ 🌍QUEM CRIOU TODAS AS COISAS?



Um argumento muito usado como reivindicação de igualdade entre Deus e Jesus é a questão da criação do universo. Se Deus é criador e Jesus é criador, então, no entendimento trinitário e unicista são o mesmo Deus. Mas será que é isto mesmo? Já vimos no estudo “O Paradigma da Comparação é
Seguro? Yahweh é Jesus?” os problemas teológicos que essa linha de pensamento gera.

Mas, analisando os versículos que envolvem a criação, qual conclusão poderemos tirar? Será
que olhando mais de perto a questão da criação, verificando a redação de cada versículo em seu contexto, com o devido cuidado, teremos uma visão clara do que tais passagens querem dizer?
Talvez a primeira coisa que precisemos definir seja a questão de Gn. 1.26 “E disse Deus:
Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” combinado com Is. 44.24 “... Eu sou Yahweh que faço tudo, que sozinho estendo os céus, e espraio a terra por mim mesmo”. ELE estava só ou acompanhado?🤷‍♂️☝️📖👇

Aqui é interessante porque os trinitários costumam não citar esses versos juntos.
Ora citam Gênesis para dizer que as “três” pessoas da trindade estavam reunidas no momento da criação do homem, ora citam Isaías para dizer que Jesus é Yahweh, por causa de Jo. 1.3 quando diz que tudo foi criado por [meio de] Jesus Cristo. Mas, se Gn. 1.26 deve ser entendido como a prova de que Deus estava acompanhado, o que é provável já que através de Jesus as coisas foram criadas, então, em Is. 44.24 a palavra “sozinho” não está se referindo a ausência de companhia, mas demostrando a capacidade plena para realizar todas as coisas pelo seu próprio poder e isto se confirma pelo contraste, conforme o contexto de Is. 44 mostra, com relação aos falsos deuses que são obra das mãos dos
homens e nada podem fazer. 👉É nesse sentido que Yahweh, o Todo-poderoso, sozinho faz tudo.👈
Bem, em Gn. 1.1 “No princípio criou Deus o céu e a terra”, vemos que não há sombra de
dúvidas de quem criou todas as coisas: Deus; esse mesmo que criou o céu e a terra é conhecido pelo nome de Yahweh conforme lemos em Is. 42.5 “Assim diz Deus, Yahweh, que criou os céus, e os estendeu, e espraiou a terra, e a tudo quanto produz; que dá a respiração ao povo que nela está, e o
espírito aos que andam nela.” e Yahweh é , conforme a própria Bíblia ensina, o Deus dos Hebreus.
Isso se vê provado em Ex. 7.16 “E lhe dirás: Yahweh Deus dos hebreus me tem enviado a ti...”. Jesus mesmo traz a informação de que o Deus dos hebreus é seu Pai em Jo. 8.54 “Jesus respondeu: Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; quem me glorifica é meu Pai, o qual dizeis que é vosso Deus”, certamente, nenhum de nós tem dúvidas de qual é o nome do Deus dos hebreus. Logo
fica claro que o criador é Deus, o Pai de Jesus, chamado Yahweh. Sendo assim, qual é o papel de Jesus na criação? Em Hb. 1.1,2 temos a resposta: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo602.” Aqui na epístola aos Hebreus fica evidenciada, de forma claríssima, a informação que o mundo foi feito por intermédio do Filho, porém
não foi uma iniciativa dEle, mas de Deus. Ele foi o instrumento para a realização dos propósitos do Pai. Perceba o paralelo:

“Falou-nos” pelo Filho, ou seja, por intermédio dEle, e, “fez também” o mundo pelo Filho, ou seja, por intermédio dEle. Com este verso da Epístola concordam as palavas de Jo. 1.3 “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”, onde “por ele”traduz o grego “δι’ αὐτοῦ” (di'auto). Sempre tomam esse verso do Evangelista para alegar que Jesus é o autor da criação e por conta disso é próprio Deus , mas não é isso que a Bíblia originalmente diz. Ele é o executor. A preposição “διά” (dia) com genitivo, que é o caso, “indica 'por' no sentido de lugar ou
instrumentalidade e se emprega centenas de vezes no N.T.” 603 . O trinitarian Strong corrobora essa ideia ao comentar essa partícula: “Uma preposição primária significando o instrumento ou o meio pelo qual um ato é realizado”, o que equivale a dizer que “por ele” em Jo. 1.3 tem o mesmo significado de “através dele” ou o “por quem fez” de Hb. 1.2. Também Cl. 1.16 ao dizer “Porque nele foram criadas...”, “nele” traduz o grego “ἐν αὐτῷ” (en autô) e embora seja usada a preposição “ἐν” (en) esta não se afasta do sentido dado por “διά”, pois “ἐν” ou é locativo ou instrumental e muitas vezes é traduzida pelo nosso “com” como em Mt. 7.2 “com a medida” ou “Com o seu braço” em Lc. 1.51,
indicando o meio pelo qual se faz algo. O próprio versículo 16 de Colossenses 1 confirma a ideia dada por Hb. 1.2 e Jo. 1.3, quando repete “por ele”, no final do verso usando a mesma forma grega dos versículos já comentados, ou seja, em todos os versos em que se associa Jesus com a Criação o texto o
indica como meio e não como a origem. Utilizar Jo. 1.3 para afirmar que Jesus é o idealizador da criação de todas as coisas é um desvirtuamento do que a Bíblia ensina acerca da Criação e do papel dado pelo Pai a Jesus Nosso Senhor nesse processo. Mesmo trinitarianos como F. F. Bruce, em obras
que defendem que Jesus é o próprio Deus, reconhecem que Jo. 1.3 afirmar que “Deus é o Criador; seu Verbo é o agente.”604 Como se não bastassem provas e não querendo deixar dúvidas de que Ele foi o instrumento em vez de autor da criação em si, a Bíblia nos diz em Ef. 3.9 de forma claríssima: “E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo”. Isto é um fato concreto, claro e bem delineado nas Escrituras, mas alguns querendo desfazer ou descaracterizar essa verdade citam Rm. 11.36 que a respeito de Deus, o Pai, diz:

“Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”, onde se encontra também a expressão “por ele”, mas sobre isso não olharam atentamente as palavras circundantes, que no original lemos: “ὅτι ἐξ αὐτοῦ καὶ δι’ αὐτοῦ καὶ εἰς αὐτὸν...” (hoti ex autou kai di'autou kai heis auton), as três preposições ἐξ, δια e εἰς, com o verbo “ser” no presente trazem a ideia de completude. Ora, se o Filho, através de quem tudo foi feito, foi gerado em algum momento,
por alguém Ele foi gerado, e esse alguém é o Pai, daí não devermos estranhar o uso de “por ele” referindo-se a Deus. O Pai é a origem (isto é importante de se destacar, e a expressão “ἐξ αὐτοῦ” usado com referência a Deus tem o significado de sair de dentro no sentido de origem, logo, tudo vem dELE), é também o meio e a finalidade, inclusive o próprio Filho, a quem também se aplica “εἰς αὐτὸν” (mas não ἐξ αὐτοῦ) em Cl. 1.16, por conseguinte é o Filho finalidade do Pai, pois o Filho se
submeterá a quem lhe submeteu tudo conforme I Co. 15.28. Dessas preposições gregas, as que se aplicam ao filho, no que tange a criação, são as duas últimas, “διά” e “εἰς”, justamente porque a que indica origem é exclusiva do Pai, “εξ”. Essa forma de uso dessa preposição com o genitivo se confirma
em I Co. 8.6 “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele”, pois “de quem é tudo” que é, nesse verso, a expressão que mostra a relação de Deus com a criação, traduz o grego “ἐξ οὗ τὰ πάντα” (ex hou ta panta) que é melhor vertido por “do qual tudo se origina” ou como prefere a Bíblia de
Jerusalém “de quem tudo procede”, isso indica a Deus, o Pai, como origem de tudo, mas quando diz “pelo qual são todas as coisas” que é a expressão, nesse verso, que indica a relação de Jesus com a criação temos, em grego, “δι’ οὗ τὰ πάντα” (di'hou ta panta) que é melhor vertido por “através de quem tudo existe” ou como prefere a Almeida Século 21 “pelo qual todas as coisas existem”. Assim,
percebe-se que todos os versículos que envolvem Jesus no processo de criação não o apresentam como fonte da criação, mas como um meio mesmo. O instrumento do Criador para realização de Sua obra.

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602 A palavra “mundo” usada nesse verso de Hebreus não é kosmos (a criação visível), mas αιωνας (aiônas) que traz um
sentido, nesse contexto, mais amplo que kosmos e indica a realidade das coisas criadas ou as existências.
603 Taylor, W. C em Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego, Juerp 1990, pág. 258
604 F. F. Bruce em João: Introdução e Comentário, Editora Mundo Cristão, 1ª Edição, 1987, reimpressão de 2014, pág.
37.

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